Mais tropas da ONU <br>para o Sudão do Sul
Os primeiros soldados da nova força militar das Nações Unidas no Sudão do Sul chegarão àquele país em princípios de Maio. A este contingente do Bangladesh e do Nepal juntar-se-ão tropas e helicópteros do Ruanda. Outros militares, nomeadamente da Etiópia, desembarcarão em Juba até ao começo de Junho.
A informação foi prestada por Hervé Ladsous, responsável das operações de manutenção da paz da ONU. «Movemos o céu e a terra para acelerar a deslocação das tropas, mas o governo do Sudão do Sul colocou entraves ao processo», precisou.
A instalação desta força militar de quatro mil soldados, que se junta aos 13 mil capacetes azuis já naquele país africano, mergulhado numa guerra civil «brutal» e ameaçado pela fome generalizada, foi decidida em Julho de 2016, depois do retomar dos combates entre o exército governamental e os rebeldes.
Segundo a revista Afrique Asie, «a fome atinge várias regiões do país» após três anos de guerra civil que provocaram dezenas de milhares de mortos e dois milhões e meio de deslocados.
As autoridades de Juba foram obrigadas a declarar, em Fevereiro, o «estado de fome» e a lançar um apelo à ajuda internacional.
As agências humanitárias da ONU, desde há muito no terreno, não conseguem aceder com facilidade às populações necessitadas, devido à insegurança e à falta de estradas transitáveis, pelo que recorrem a meios aéreos, pouco eficazes na distribuição de alimentos.
Essas agências estimam que, em meados de Fevereiro, havia 100 mil sul-sudaneses a sofrer de fome, podendo esta cifra chegar a um milhão nos próximos meses.
A ONU alertou para o risco de genocídio no Sudão do Sul, já que o conflito fratricida, desencadeado em Dezembro de 2013 por divergências políticas, assumiu contornos de guerra étnica. «Os dinkas do presidente Salva Kiir atacam os nuers do rival Riek Machar» e o seu objectivo «é claramente exterminá-los, sejam ou não partidários do antigo vice-presidente», escreve a Afrique Asie.
Guerra e petróleo
Um relatório confidencial da ONU, apresentado ao Conselho de Segurança, adverte que a guerra sul-sudanesa, marcada por massacres e outras atrocidades, atingiu «proporções catastróficas para os civis» e há o risco de tornar-se «incontrolável».
Em finais de 2016, após uma visita de 10 dias ao Sudão do Sul, uma delegação do Alto Comissariado da ONU para os Direitos do Homem denunciou estar em curso uma «limpeza étnica» em diversas regiões do país. Comparou a situação actual à do Ruanda em 1994 (guerra entre tutsis e hútus), apelando à comunidade internacional para evitar um novo genocídio.
«Apadrinhado» pelos Estados Unidos, o Sudão do Sul separou-se do Sudão após anos de guerrilha e tornou-se independente em 2011. O jovem Estado africano é rico em petróleo e 80 por cento das suas exportações vão para a China. Não é, pois, de estranhar a ingerência do imperialismo no país, com as habituais «receitas» conduzindo a disputas políticas, ao acicatar de divisões étnicas e religiosas, à guerra, à pilhagem das riquezas dos povos.